Com-pulsão em Compras

Por que tantas pessoas sofrem com o ato de fazer compras? Na verdade, o sofrimento não é sentido durante o ato, e sim, logo após, o mesmo.

Esse comportamento chama tanta atenção que criaram novas expressões: “viciados em compras”, “shopaholics” ou “onanie”. Quer seja um ou outro nome dado a essa compulsão, o importante é sabermos por que isso afeta tantas pessoas.

O que leva com que milhões de pessoas se entreguem a esse vício que traz tantas consequências? Por que existem mulheres e homens que por não conseguirem se controlar, extrapolam seus limites, o limite de seu cartão de crédito e às vezes leva a si e sua família à ruína financeira?

O próprio nome já nos dá uma pista, pois quando falamos de compulsão em compras, podemos ler com-pulsão, e não, desejo em compras. Trata-se, portanto, da pulsão.  Algo que os pacientes em análise, reconhecem como alguma coisa mais forte que a vontade, algo que os impele a sair de casa e comprar. Às vezes não importa o que seja, podem ser sapatos, roupas, comida, bebidas, carro, etc. Nessa relação pode entrar qualquer coisa que apazigue momentaneamente uma angústia sentida.

A compulsão não se manifesta somente na forma de compras, ela pode também significar: compulsão em bebidas, drogas, jogos, relacionamentos afetivos, relações sexuais, em contar mentiras, etc.

Os pacientes relatam que por não entenderem o que lhes acontece, ou por não suportar a angústia ou ansiedade que sentem, correm para apaziguá-la através de mimos ou presentes para si. Porém, no minuto seguinte se arrependem, prometem que não mais o farão e tornam a repetir o mesmo diante de outra situação de angústia. Isso leva a um ciclo quase infernal de repetição, pois por se sentirem culpados pelo que fizeram, se punem: comem muito, bebem, se entristecem, reatualizando a repetição que parece não ter fim.

Para entendermos um pouco esse processo de repetição é importante recorrermos ao que significa para a psicanálise a pulsão: algo definido por Freud como inerente ao ser falante, que não tem a ver com a vontade e sim com algo mais forte que quer ser satisfeito, não importando como. Existem dois tipos e Freud denominou Pulsão de Vida e Pulsão de Morte. A primeira, como o próprio nome já diz, leva a preservação da vida, a outra à destruição.

Às duas coexistem durante toda a vida, sendo necessário um limite para que fiquem dentro da normalidade. Um pouco depois, Freud acrescentou que as duas são uma só: toda pulsão é pulsão de morte.

Como disse anteriormente, existe sempre uma busca de satisfação que fará com que seu caminho seja sempre o de buscá-la através da repetição (repetição inconsciente). Esse mecanismo é feito desde os primeiros momentos de vida, já que o bebê sempre buscará uma repetição da primeira satisfação ao seio. O prazer sentido proveniente dessa primeira satisfação, será buscado incessantemente durante toda a existência.

Portanto, se antes para o bebê existia a satisfação direta (sentia fome: era alimentado) quando entra na linguagem e no princípio da realidade, essa perda deixará um traço psíquico, o traço de um objeto que foi perdido e que será buscado nos outros objetos. E não importa a qualidade do objeto, e sim, a procura por eles. Daí a relação com a compulsão à repetição, onde o que importa é o ato de satisfação da busca.

Concluindo, no ato da com-pulsão se trata de um imediatismo, pois a pulsão não quer esperar para ser satisfeita. Diferente do desejo que pode levar o sujeito a buscar um momento mais adequado para realizá-lo.

Enquanto na pulsão existe a urgência, no desejo encontramos a espera. Como a compulsão por compras está ligada à compulsão à repetição inconsciente, é importante que cada um descubra o que tanto busca, e qual o valor desses objetos que vem momentaneamente cobrir a falta de um objeto perdido.

2011.

Andreneide Dantas
Psicanalista e Psicóloga

 

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