Culpa e sacrifícios

Alguns pacientes em análise sentem sinais de piora, logo depois que tinham tomado consciência da melhora que tinham obtido através de seu trabalho analítico. É comum em alguns casos que o paciente comece uma análise e descubra entraves que estava atrapalhando sua vida e isso faz com que ele desfaça equivalências sintomáticas e melhore. Nesse ponto, pode acontecer uma desestabilização. Isso parece contraditório: “Como pioram depois de ter se dado conta de que tinha melhorado?”

Para trabalharmos sobre esse assunto, retomo o que Freud nos disse no artigo “O Eu e o Isso”, quando assinalou, que algumas pessoas não suportam o alívio sintomático, bem como não se sentem bem quando são elogiados. Para o primeiro, nomeou esse comportamento de “reação terapêutica negativa”. Uma reação que é desencadeada quando o paciente percebe que melhorou e isso se apresenta como um perigo para seu aparelho psíquico.

Isso acontece, porque a melhora é entendida como um risco, e esse sentimento pode ser um obstáculo para que ele continue melhorando, às vezes pode ser motivo para interrupção do tratamento. Pois esse sentimento ou essa reação que os analisandos têm pode ser entendido como um perigo – maior ainda – que o benefício secundário que a doença trazia.

Aqueles que se dedicam ao atendimento de pacientes em análise, sabem que toda doença ou sintoma costuma trazer um benefício para aquele que sofre. Quer seja ter a atenção de familiares, quanto conseguir plateias para suas lamentações. Logo, alguns se aferram ao sofrimento, ou a uma doença para não perder esse “benefício” que veio junto.

O dito acima podemos verificar em Freud, quando ele situou no texto Além do princípio do Prazer, como uma satisfação obtida com o sintoma, e na nomeação de Jacques Lacan encontramos como gozo, que é uma espécie de satisfação com a doença e com o sintoma. Por mais que essa, seja fonte de sofrimento e atrapalhe sua vida, ainda assim, traz algum ganho para o sujeito.

Os pacientes que estamos descrevendo, mantêm-se no sofrimento por experimentarem um sentimento inconsciente de culpa e encontram no sofrimento ou na doença uma satisfação. Aqui, o sofrimento serve como uma forma de punição. Portanto, o paciente não se permite deixar de sofrer só por acreditar que precisa continuar expiando ou expurgando sua culpa. Ele não se sente culpado, na verdade se sente doente (1). Esse sentimento, como nos diz Freud, se impõe ruidosamente à consciência, dominando tanto o quadro clínico quanto a vida do paciente. 

Mas, por que o sujeito escolhe se punir? O que o faz procurar essa forma de sofrimento?

Situando um pouco mais sobre esse sentimento de culpa, em “O Eu e o Isso” vemos, em alguns casos, que ele pode ser tão exagerado que pode até transformar algumas pessoas em criminosos. Pois o sentimento de culpa – que já existia antes – faz com que o sujeito pratique ou cometa o crime. É como se fosse um alívio poder ligar esse sentimento inconsciente de culpa a algo real e imediato. (2). Isso significa, que antes do “ato maldoso”, já existia o ‘mal’ dentro de cada um, e esse mal tem relação com o gozo no pior, proveniente da pulsão de morte que existe em todo ser humano. 

Em 1916 Freud situou, que “nas crianças podemos observar que elas são más, para provocar castigo, e uma vez que este é obtido mostram-se tranquilas e contentes.”

O sujeito se sente culpado por algo que cometeu?

Não necessariamente, às vezes ‘quando a pessoa não fez realmente a coisa má, mas apenas identificou em si uma intenção, ou desejo de fazê-la, ela pode sentir-se como culpada”. “Muitas vezes os pacientes não percebem esse sentimento, o que relatam é um mal-estar opressivo que se manifesta como angústia. Então aqui, bastou desejar para se sentir culpado.

É comum que alguns pacientes relatem serem tomados de uma angústia grande quando estão próximos a realizar algum feito notório ou depois de terem conseguido uma promoção no trabalho, ou, ainda,  às vésperas de uma viagem. Quando questionados, revelam que pensavam que “não mereciam” coisas boas.

A que cada um sacrífica atualmente: A felicidade, o prazer, o desejo?

Ouvimos repetidas vezes que os pacientes têm dificuldades para aceitar e se regozijar com suas conquistas e se permitirem momentos de felicidades. Uma paciente comentou que quando estava feliz e sorrindo, escutou de sua mãe que logo iria chorar, pois estava rindo muito. Aqui encontramos a associação entre felicidade e punição. Como se a ela não fosse permitido.

A cultura, nos diz Freud, em Mal-estar na Cultura” fez com que os homens colocassem uma barreira em suas pulsões de destruição, mas esse ato não é sem consequências, pois atrelado a ele, vem a culpa. Encontramos aqui um antagonismo entre as tendências das pulsões que querem ser satisfeitas e a civilização que coloca suas regras e leis.O resultado é a culpa que se estabelece. Isso é ao que todos devem renunciar: a satisfação de pulsões agressivas ou destrutivas.

De acordo com os ensinamentos freudianos, vemos que o sentimento de culpa tem duas origens: medo da autoridade paterna (que leva o sujeito a renunciar a pulsão destrutiva) e medo do Supereu. Essa instância psíquica que é herdeiro do complexo de Édipo, resultado da internalização da autoridade paterna e também da sociedade. Por conta disso, o sujeito se sente vigiado, sente um olhar do qual não consegue se esconder. Pois para o psíquico, a necessidade de punição diz respeito ao fato de que no Supereu nada escapa: ele tudo vê, os desejos mais secretos e às vezes impronunciáveis.

Nesse ponto, encontramos o sentimento de culpa proveniente da tensão entre a severidade do Supereu e o Eu.

E assim como a criança obedecia a seus pais, o adulto obedece ao Supereu. E dependendo da gravidade do caso, o sujeito obedece cegamente aos mandamentos do Supereu.

Então, quanto mais alguém se sente um pecador mais culpado se sente. Por conta disso, tem uma “necessidade de punição” e mesmo que eles não se deem conta, sentem um mal-estar que os atormentam e os impedem de praticar ações que os fariam bem. Por exemplo, quando alguém quer fazer algo e esquece de fazê-lo, fica ‘martelando’ na cabeça seus esquecimentos… Aqui, vemos que a palavra martelar não é por acaso, esse paciente sentia fortes dores de cabeça e mesmo fazendo todos os exames médicos não detectaram nenhuma causa orgânica. Nesse ponto, o significante martelar ou martelando atingia a cabeça do paciente e lhe provocava dores.

Outros não entendem porque mesmo após sofrerem tanto com determinados comportamentos, quer seja em relações amorosas prejudiciais, amizades nocivas, trabalhos infrutíferos, não conseguem dizer NÃO. Não consegue escolher algo que não os faça sofrer.

No seminário da Ética, Lacan situa que com o sacrifício o sujeito se castiga e isso serve para que sacrifique seu desejo e realize o gozo, dessa forma se coloca como escravo do outro.

Isso significa que o sacrifício que cada um se inflige tem relação com o gozo do Outro e com sua inconsistência. Quanto mais desvario alguém sente em querer manter o Outro consistente, mais sacrifício se fará.

Quanto mais o sujeito fizer renúncia do seu desejo, mais o Supereu vai exigir uma nova renúncia e quanto mais o sujeito renunciar, mais vai se sentir culpado e quanto mais culpado mais sofre-dor. Parece um ciclo interminável se o sujeito não colocar uma barreira. Essa barreira será a realização de seus desejos.        

O desejo é a barreira contra o gozo, é a barreira contra os imperativos sádicos do Supereu.

O trabalho de análise, possibilita que o analisando possa trabalhar para abdicar do gozo e fazer escolhas éticas para realizar seu desejo.

Referências Bibliográficas

  1. Freud, Sigmund – O Eu e o Isso, Obras completas
  2. Freud , Sigmund  – O Eu e o Isso,  Obras Completas
  3. Freud, Sigmund  – Mal-estar na Cultura, Obra Completa.
  4. Lacan, Jacques   –  Seminário 7 – A Ética da Psicanálise

2015

 

Andreneide Dantas
Psicanalista e Psicóloga

 

#escutaanalitica1

Fechar Menu