Dependência de drogas

Por que a grande maioria de sujeitos que usam drogas (álcool, maconha, cocaína etc.) torna-se dependente, ficando à mercê e escravo delas, enquanto existe um outro percentual que faz uso das mesmas e não se torna dependente?

Quem são as pessoas que se viciam nas drogas? Como estão suas vidas? Do que nos falam no consultório?

Quando estes pacientes têm a sorte de chegar a um psicanalista – digo sorte, pois muitos recorrem a vários tratamentos com pouca ou nenhuma eficácia – podem falar e resgatar suas histórias; podem se encontrar com o que lhes é mais íntimo, com suas singularidades. Descobrem que são responsáveis pelo que lhes acontece e assim podem tomar decisões, deixando de atribuir ao destino o que lhes acontece.

Estes pacientes falam no início de quantas vezes fumaram, cheiraram e se picaram. Com quem, quando e como o fizeram. Aos poucos, vão deixando que apareça em seu discurso suas histórias, vão acanhadamente falando dos amigos – dos poucos que restam, da família, do trabalho e dos estudos.  Falam do pesado fardo de suas existências, das mazelas e da dor que sentem. Deixam aparecer os pontos fragmentados de suas falas, onde fica em evidência que sua palavra está esvaziada de sentido, que não encontram razão para continuar vivendo.

Alguns até podem ter sucesso no que fazem, ganham dinheiro, têm suas casas, carros e viagens, mas não encontram prazer no que realizam. Sentem um “vazio” que tentam preencher com o produto químico.

Falando, trazem à tona lembranças, recordações de sua infância, flashes de momentos que passaram e acreditaram que não eram importantes. Nessas lembranças sentem retornar ódio, medo e amarguras de palavras ditas, não-ditas, escutadas ou não.

Falam do lugar que ocupam na família, do que não conseguiram falar e, justamente por isso, passaram ao ato. Ato de drogar-se, ato de anestesiar-se, ato de adormecer. Tudo isso para não prestar contas de seus desejos. Escolhe um gozo “estúpido” a ter que descobrir o que desejam. É isso o que o ser falante mais teme: saber sobre seu desejo, e quando digo desejo não é o mesmo que o querer ou a vontade. Falo do desejo inconsciente.

Uma paciente viciada em cocaína teve a lembrança de que quando era criança tinha sido abandonada por seu pai. Em suas relações afetivas, fazia com que isso se repetisse, usava drogas para se afastar dos irmãos e do marido. É isso que acontece: repetem o que viveram nos primórdios da infância. Muitos, podem nunca descobrirem o porquê de suas escolhas e dessa forma, tornam-se “presas” do destino.

Os pacientes falam que usam drogas para “preencher um vazio insuportável”, para “encarar o dia a dia”, para “suportar ficar vivo”. Tentam preencher algo que não é possível:o buraco da existência que existe para todo ser humano. Não existe um ser que seja completo, nem pode estar totalmente satisfeito. Cada um encontra uma forma de lidar com isso. Alguns têm sintomas na fala, dificuldades no trabalho, nas relações, outros recorrem a produtos químicos, à comida, etc.

Os que ficam dependentes de algo – drogas, comida, trabalho, uma pessoa etc. – colocam esse objeto como único, que não pode entrar na cadeia simbólica junto com outros objetos.

Os pacientes descobrem na análise, que é falando de sua história que podem mudar o rumo de suas vidas. À medida que vão falando para um analista, vão trocando o gozo estúpido que a droga dá por palavras. A droga vai caindo e o sujeito vai se sustentando em seu discurso. Vão organizando suas histórias e o que sentem no corpo, e não precisam mais gozar solitariamente. Descobrem que precisam dos outros como parceiros, que precisam falar do mal que lhes acontece e assim podem colocar-se no mundo de outra forma.

Muitos pacientes dizem ter experimentado uma outra forma de viver, quando descobrem em análise que falando de outro jeito, conseguem fazer de outra forma. Aprendem que a palavra, a linguagem, nos separa da animalidade, que dizer ou deixar de dizer uma palavra faz toda a diferença. Por sermos providos de linguagem quando não fazemos uso dela, colocamo-nos no mesmo lugar que os fantoches e marionetes. Somos manipulados e muitos, para suportar isso, entopem-se de drogas, comidas e medicamentos.

Descobrir o valor do que fala possibilita saber da responsabilidade que cada um tem com sua própria vida. Somente ao descobrir sobre seu desejo pode fazer escolhas de uma forma mais “acertada”, de forma consciente.

Andreneide Dantas
Psicanalista e Psicóloga

 

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