Depressão em Professores

A depressão é um sintoma típico de nossa época atual. Um mal que acomete várias pessoas independente de idade, sexo ou grau de instrução.

Quando lemos os dados publicados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) nos surpreendemos ao saber que esse transtorno é o mal mais comum entre as mulheres, ao ponto de superar até mesmo o câncer de mama e doenças cardíacas.

Segundo pesquisas, o peso da depressão na ocorrência de infarto é tão grande que passou a ser considerado um fator de risco isolado pela Federação Mundial de Cardiologia. Um outro dado que temos que considerar é que essa “doença da alma”, como é chamada, é a quinta maior questão de saúde pública e se nada mudar em 2020 será a segunda maior causa da morte.

O que será que causa esse mal-estar tão devastador? Que causas estão por trás desse transtorno  que se apodera do corpo e causa tanto mal para aqueles que sofrem depressão e para os que os cercam? Por que a depressão chega até mesmo a impossibilitar que homens e mulheres vivam normalmente?

Será que a explicação é somente biológica? Atribuída a baixa do neurotransmissor serotonina ou existem outras explicações?

Podemos dizer, por experiência clínica, que existem outras causas, pois a depressão nunca ocorre como um fato isolado da vida do sujeito sofredor. Não existe depressão que ocorra por “casualidade”, ela está sempre ligada a algum acontecimento ou até vários acontecimentos ao longo da história do sujeito.

Esse “algo” não foi elaborado emocionalmente, pode ter sido a perda de um trabalho, separação, morte de um ente querido, dificuldades no trabalho, etc.  A lista pode ser imensa, e isso ocorre porque somos afetados em nosso corpo pela nossa psique, pelo nosso inconsciente. Somos afetados por aquilo que falamos ou deixamos de falar,  geralmente os sujeitos deprimidos são aqueles que cedem muito em relação às palavras, ao que querem dizer e ao que querem fazer.

São pessoas que costumeiramente não dizem ou fazem o que querem, mas, o que acham que o outro quer que o faça. Cedem tanto, que chegam ao ponto de não conseguirem levantar da própria cama para fazer as atividades cotidianas.

Em nossos consultórios recebemos pacientes que sofrem de depressão e tomam medicação (há muito tempo) e parecem que se arrastam em vez de andar. Dizem que não sentem desejo de viver, de trabalhar, acordar, levantar e estar com outros.  “Eu não vivo, eu me arrasto”,parece que carrego bolas de ferro nos meus pés”, “a vida não tem mais sentido”, são algumas das expressões. 

Temos recebido muitos professores que estão acometidos por essa “doença” e estão afastados de sua atividade profissional.

Apresentam uma apatia e um pesar que os impossibilita de estar com os outros. São pessoas que sofrem cotidianamente e fazem sofrer toda a sua família.  E à medida que contam sua história – a atual e a de sua infância – na análise se dão conta de que são afetados em seu corpo e psique, pelo que dizem, deixaram de dizer e principalmente pelo que viveram em sua infância (traumas, perdas) e não foi elaborado.

Descobrem que seu corpo não responde somente ao biológico, que o que sentem reflete em seu comportamento, seu humor e felicidade. Para esta última, não foi descoberto um gene que seja o responsável, como pretendem alguns..

À medida que falam sobre sua história e escutam o que dizem sobre sua relação com os outros, percebem que falar não é sem consequências. Aos poucos fazem descobertas, trazem lembranças que estavam “guardadas no baú de seu passado”. Recuperam sua auto-estima, tornam-se donos de suas palavras, de suas vontades e de seus desejos. Esse processo possibilita que a vida desses pacientes tenha sentido, algo que eles tinham perdido outrora.

Quando falam e elaboram suas emoções, isso repercute em seu corpo que deixa de ser invadido por sensações desagradáveis. Assim, deixam de ser marionetes do discurso e tornam-se responsáveis por aquilo que antes ignoravam – seu desejo (inconsciente).   Não existindo um gene que seja responsável pelo desejo de viver , é necessário que cada um se encarregue de sua história, seu destino e sua felicidade.

Isso é o que vemos acontecer na análise desses pacientes que acreditavam que estavam condenados a sofrer: em vez de alimentarem a depressão com a falta de palavras, alimentam seu corpo de desejo, retomam suas atividades e encontram satisfação em sua vida.

Andreneide Dantas
Psicanalista e Psicóloga

 

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