Depressão – Onde está o desejo?

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a depressão é o mal mais comum entre as mulheres, superando o câncer de mama e doenças cardíacas (Revista Veja,1999).

O peso da depressão na ocorrência de infartos é tão grande que ele passou a ser fator de risco isolado, Federação Mundial de Cardiologia (Revista Veja,2002)

Comparando essas informações constatamos que a depressão é um mal que cresce a cada dia, isso significa que a cada hora mais pessoas deixarão de fazer suas atividades, de concluir tarefas, seus atos diários, não encontrando mais prazer em seu cotidiano. Será que isso surge de repente?

Não. O sujeito “deprimido” é aquele que vai ao longo de sua vida cedendo em seu desejo, abrindo mão do que quer fazer até o ponto em que não é possível levantar da cama; aliado a isso, pode ter também emagrecimento, dores e muita tristeza, mais do que tristeza, nos dizem: “uma dor profunda na alma, que não sei de onde vem“: “tudo é cinza, e não importa se o dia está ensolarado“; “eu não vivo, me arrasto a cada dia“.

Existe algo que caracteriza a depressão que é uma “tristeza” (na verdade, não é tristeza, mas apatia) imensa e que o sujeito abandona o que fazia diariamente, por não encontrarem forças para seus afazeres do dia-a-dia.

Até chegar ao consultório de um psicanalista, o sujeito sofredor pode ter tomado vários medicamentos – alguns com eficácia e outros não – ter sido tratados somente organicamente, para equilibrar a química cerebral que estava desregulada. Mas, na maioria das vezes não falaram sobre a dor e a angústia que sentiam. São poucos os médicos que reconhecem que os pacientes não podem ser tratados somente com medicamentos, que precisam falar e descobrir o sentido do que lhe aconteceu.

Essa “doença da alma”, como é chamada, é a quinta maior questão de saúde pública e em 2020, segundo a OMS, deverá ser a segunda maior causa da morte.

Podemos afirmar que a depressão é uma das patologias do dizer. O psicanalista francês Jacques Lacan argumenta que se trata de uma covardia do sujeito frente a seu desejo.

Não é dessa covardia que Lacan falou,  mas da dificuldade que o sujeito tem diante de seu desejo. Esse é inconsciente e difere da vontade consciente. Se o desejo não fosse enigmático, como poderíamos explicar o fato das pessoas dizerem que querem realizar determinado ato e se dão conta de que fazem o contrário?

Escutamos os pacientes dizerem que “caíram” na depressão em um momento significativo de suas vidas: morte de um parente, perda ou ganho de um emprego, nascimento de um filho, saída dos filhos de casa, etc. Nunca é sem um entrelaçamento com algo ocorrido. Também verificamos, que temporalmente esses sujeitos foram se calando, fazendo o que os outros queriam, pediam ou determinavam e em relação ao desejo deles foram se amortecendo. Alguns, até se apresentam como “depressivos crônicos”, dizem que nada, nem ninguém, poderá tirar isso dele. Às vezes é a única coisa que lhes sobrou, pois, já perderam o resto: trabalho, namorado, estudos, etc.

Existem saídas? É possível que o sujeito retome sua vida, seu desejo?

O que vimos na clínica, é que à medida que esses pacientes vão falando do “mal-dito” vão se encontrando em seus dizeres, vão mudando o seu discurso e “des- enlouquecendo” a química cerebral. Podem articular o seu corpo à sua fala, não mais se colocando como “massa corporal orgânica”, mas, como um corpo afetado pelo dizer, pelo discurso, pelo simbólico, esse registro que nos tira da animalidade. Falando em análise, descobrem o “curto-circuito” de suas falas e podem posicionar seu corpo em outro lugar, no verbo.

Andreneide Dantas
Psicóloga e Psicanalista

 

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