Dificuldades Escolares

Toda ação sobre a letra, ao nível da linguagem durante a cura, terá um eco sobre o corpo, porque existe equivalência entre as formações do inconsciente e a letra (Pommier). Quando convidamos uma criança que diz esquecer de escrever algumas letras — a escrevê-las no dispositivo analítico, confiamos no “não-saber” inconsciente. Essa solicitação possibilita que ela descubra as significações reprimidas que impedem o enlaçamento das letras.

Uma criança aprende a escrever ao final de seu Complexo de Édipo, quando este é articulado à angústia de castração.

A letra reside primeiro no inconsciente antes de ser reproduzida na escrita, por isso existe um horror à letra ligado à angústia de castração. É o que cada sujeito sente quando se depara com uma situação de ter que escrever uma redação, artigo ou fazer uma prova. Não é tarefa fácil se deparar com uma folha em branco.

A pedagogia propõe um ideal de saber sustentado pela crença de que o homem quer saber. Para a psicanálise, o homem, sujeito do inconsciente e de sua estrutura, não quer saber sobre a falta. No consultório, o sujeito – não importa a idade – se depara justamente com a falta.

Um garoto traz para a sessão uma redação que fez na escola e um bilhete da mãe. Pergunto do que se trata, ele pede que eu leia e diz que já sabe o que é. Fala que sua letra é feia, que as pessoas não a entendem. Diz que não poderia ser diferente já que sua mãe também “tem a letra tão feia” quanto a dele e que assim ela não pode reclamar.

Pergunto se ele precisa fazer como sua mãe?

Pensa e responde: “Não”

Na sessão seguinte traz o caderno com outra redação onde repete frases, troca o “C” pelo “S”. “C” é a primeira letra do nome da mãe dele. Conta que é o pior em redação da sua sala, depois diz que uma vez fez uma redação “melhor que a garota que mais gosta de redação na sala”.

Pergunto como pode ser o pior se já fez tão bem.

Então, eu sou melhor em redação do que eu imaginava”, responde.

De um lado existe a demanda materna que se formula à mercê do significante engendrando a repressão primordial, do outro, a repressão retorna graças a essas formas literais tendo o mesmo valor do que foi reprimido (Pommier).

O Significante vem do grande Outro e a literalidade resulta da repressão. O Sujeito é representado por significantes na linguagem ao nível pré-consciente, enquanto as letras constituem as formações do inconsciente.

Entendemos o sintoma disléxico como testemunha de uma confusão entre o significante do grande Outro e a letra.

Se comparamos as dificuldades escolares a fatores emocionais podemos nos perguntar o que acontece com o sujeito débil? Até 1909 a debilidade mental esteve ligada ao físico, do latim “habilis” – habilidade. A partir dos anos 50, a psicologia faz a diferença de “essência segregativa” e “debilidade do quociente intelectual”.

Lacan entende a debilidade, não em termos de déficit, e sim, como um mal-estar fundamental do sujeito em relação ao saber. Concerne a estrutura, trata-se de uma relação particular do sujeito com o grande Outro (que pode ser a mãe ou quem vai a esse lugar). O grande Outro do débil apresenta-se inquestionavelmente em sua verdade, não há buraco, não existe falta.

Entre o débil e sua mãe existe apenas um significante.

Maud Manonni, psicanalista francesa, é quem primeiro trabalha com crianças afetadas pela debilidade mental, mas difere de Lacan quando diz haver só um corpo entre dois.

Para não duvidar do grande Outro da lei, o débil resiste contra tudo o que puder colocar em dúvida a veracidade do grande Outro do significante. O grande Outro da lei é o amo do saber. Então ele não pode aprender, senão isso seria o mesmo que duvidar do grande Outro, percebê-lo como faltante, como barrado, com fissuras e com erros.

Geralmente essas crianças são objeto exclusivo dos cuidados maternos, sem intervenção da lei encarnada na imagem paterna.

Apresento dois casos para ilustrar.

Recebo uma garota que fazia tratamento desde os 9 anos com psicólogas e fonoaudiólogas.

A queixa é de não ter noção de espaço, formas, não elaborar frases, não usar elementos de ligação entre as palavras, trocas de letras e não conseguir escrever a não ser palavras isoladas. Vem com um laudo atestando 2 anos e meio de atraso na escola por isso, segundo esse diagnóstico, teria que ir para uma classe especial.

O que vejo é uma menina agarrada a sua mãe, com a boca aberta, com andar característico de quem tem debilidade mental severa. Sua mãe diz que ela foi muito mimada, que só falou aos 3 anos. Antes disso, o que falava só os de casa entendiam, os de fora não! Aqui vemos que sua filha não necessitava falar com outros além dos de casa, que a entendiam. Mamou até os 3 anos, até um ano não tinha dentes.

Essa garota de 10 anos quando menstruada, sua mãe trocava sua calcinha e absorvente, a mãe dava comida, limpava e dava banho.

Pergunto o motivo desses cuidados visto que a filha já tem 10 anos, diz que pensa que sua filha não conseguiria sozinha.

Peço para que ela comece a deixar sua filha se encarregar de sua higiene, alimentação, etc.

A garota não sabia contar, não se contava, era como se ela e a mãe fossem uma só. Não sabia colocar quadrado em quadrado no jogo de formas. O que era perguntado quanto ao dia: hoje, ontem, amanhã, não sabia, não separava, não estava orientada.

O trabalho na clínica foi de limitar, fazer buraco, contorno, no que era um todo, amplo, sem formas, questionar o que ela não sabia.

Esta mãe surpreendeu-se quando sua filha copiou um bilhete ditado pela professora. Hoje, sua filha está alfabetizada, pode se contar, não carrega mais o significante de débil mental, é uma garota como as garotas de sua idade.

Outra garota veio indicada por uma fonoaudióloga que não acreditava no diagnóstico que outro profissional deu a sua paciente: “não apta ao ensino regular, necessitando classe especial e com reservas.”

Essa garota apresentava uma desorganização da escrita, pontuação inadequada, dificuldade de raciocínio lógico e matemático, retraimento. Apresentava uma timidez a ponto de não falar com colegas de classe, não falar com adultos, não responder à professora quando solicitada.

Aqui também encontro uma filha que é exclusiva dos cuidados maternos por apresentar fissura lábio palatina.

Omitia as letras iniciais  letras de seu nome. Isso é o que ela não conseguia escrever: seu nome, o que lhe era mais próprio. Não conseguia porque neste momento seu nome lhe era impróprio, como se fosse exterior a ela.

No primeiro ano de tratamento foi matriculada no ensino comum, passou de ano direto, saiu-se bem à medida que pode operar os significantes na sessão. Significantes que a incluíam como uma pessoa, separada do grande Outro.

A mudança deu-se tanto na escrita como também no seu corpo.

Assim trabalhamos com os pacientes que nos procuram, quer tenham queixas de dificuldades escolares, mutismo, retraimento, etc. Escutamos o sujeito do inconsciente, perguntamos àquele que está diante de nós o que ele tem a nos dizer sobre o que sente e sofre, não importa quantos anos tenha: 2 ou 70 anos.

Andreneide Dantas
Psicóloga e Psicanalista

 

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