Escuta Analítica com Crianças

Quando uma criança nasce, tem um lugar junto a sua mãe — que é o grande Outro — em relação ao desejo dela. Existe, mesmo que por pouco tempo (é importante que o seja), a ilusão para esta mãe que seu filho a completa, que ela e a criança são um só. A este filho por sua indefensão só lhe resta ir a este lugar. Mais tarde — quando o pai opera — esta mãe pode olhar para outra direção que não para seu filho. (Isso acontece quando as coisas transcorrem bem).

Dessa forma pode constituir-se para o filho a realidade, a castração opera e ele pode desejar.

O sintoma da criança representa a verdade do casal familiar. Já nos dizia Lacan.

A escuta do psicanalista possibilita definir o lugar e a direção da cura para a criança que nos procura. Numa análise com crianças, sabemos que por serem dependentes dos pais, a demanda inicial é deles. São eles que trazem os filhos, e é importante escutá-los para saber qual é o lugar que este filho ocupa no desejo deles, qual é o sintoma do filho e para que isto serve.

Muitas crianças chegam até nós, com diagnósticos e “destinos traçados”: “Não viverá muito, devido à Síndrome” “Não aprenderá a ler” “É limitado” “Não tem jeito”, etc. Com nossa escuta podemos subverter isto e causar o desejo de mudança. Operando no discurso, mudamos o “destino”, segundo o que aprendemos com a psicanálise. Oferecemos um lugar onde os pequenos falantes serão sujeitos do desejo, sujeitos responsáveis, mesmo que tenham pouca idade.

Recebo pacientes trazidos por seus pais, orientados por médicos ou pela escola. Nas queixas, falam do mal-estar deles em relação aos sintomas de seus filhos. Nas entrevistas, escutamos de quem é a demanda, muitas vezes são eles (os pais) os que ficam em análise.

Quando ouvimos e vemos a necessidade de outros tratamentos, perguntamos se os pais foram orientados a procurar também outros profissionais. Em muitos casos (a grande maioria) já estão sendo atendidos.

É importante o valor que vários campos de discursos podem oferecer para a saúde da criança. Tanto para a saúde orgânica quanto para a psíquica.

Algumas crianças chegam com diagnóstico de “debilidade mental” e a orientação que receberam é que “Só lhe restava uma classe especial”, pois  “Talvez consiga aprender algo”.

A mãe desta e de outros pacientes se surpreenderam quando descobriram que sua filha aprendeu a ler. Outra mãe, por ser orientada por uma fonoaudióloga que estudava psicanálise, indicou a paciente. No trabalho de escuta evidenciou-se um comprometimento de sua filha junto à mãe, como se às duas tivessem um só corpo.

Hoje estas pacientes estão numa outra posição em relação às mães. São crianças como outras de sua idade.

O corpo é afetado pela linguagem e através do discurso podemos situar o que não “funciona” para aquele sujeito.

O primeiro lugar que habitamos é a linguagem, uma criança já é falada antes de ser falante, mesmo antes de nascer já tem um lugar no desejo de seus pais

Algumas crianças chegam com crises de asma e bronquite, são dependentes de remédios e outras vezes de internações. Atendi uma paciente que veio indicada pelo pediatra que não aceitava mais as internações que sua paciente sofria. Em seis meses tinha sido internada cinco vezes. Esta garota de cinco anos “não podia” ter tapetes, cortinas e bichos de pelúcia em seu quarto. Após algumas sessões fui questionando o que ela “não podia” e aos poucos foi trazendo um a um, seus bichos de pelúcia (girafa, vaca, coelho, ursos etc).

Na análise a paciente descobriu o que era difícil de “respirar” em sua vida. Seus pais brigavam muito e a ela só lhe restava chorar “em um canto”. Após seis meses, sua mãe decidiu que sua filha não precisava mais vir, pois, estava melhor, agora tinha tapetes, ursos, cortinas no quarto e “não precisava” mais ficar doente.

Trabalhando com crianças, oferecemos um lugar diferente de todos os outros, um lugar onde são sujeitos de desejo, podem tornarem-se responsáveis por seus atos, mesmo que tenham pouca idade. Dessa forma possibilitamos que tenham um destino diferente do que os adultos acreditavam existir para eles. Podem crescer saudáveis e responsáveis.

2004.

Andreneide Dantas
Psicanalista e Psicóloga

 

 

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