O ato de adoção

Começarei meu trabalho com um recorte de uma análise. Uma mulher decide me procurar porque não conseguia lidar com sua filha e queria que ela fizesse análise. A garota tinha dois anos e meio e, segundo a mãe, “não tinha limites”, “era terrível”, “não obedecia”. Sic.

Quando ela começa a falar na entrevista, me diz que Mariana (nome fictício) é adotada. Ela já havia adotado o irmão de Mariana há alguns meses, quanto a ele falou o seguinte: “foi beleza, sossegado, ele é um amor”; “Com Mariana foi difícil desde o primeiro momento, pensou que para ela também”.

Perguntei quando decidiu adotar, o porquê. Ao qual me respondeu que não podia engravidar e daí decidiu com o marido, adotar um filho. Seu marido gostou tanto, que “decidiu adotar uma filha”. Perguntei se ela também decidiu isso. Vacilou e concordou que sim, “mas foi ele quem teve a ideia”.

Ainda na primeira entrevista, fala que talvez a “garota”(não disse filha) seja difícil porque a sua história de origem é ruim. Ela tinha vivido até os dois anos em um ambiente ruim, de brigas e alcoolismo. “Talvez ela tenha puxado a mãe”. Perguntei de quem ela estava falando, e disse que da que pariu Mariana, continuou falando e por várias vezes, falou da genitora como sendo a mãe da menina.

Sabemos que falar não é um ato sem consequências, pois quando dizemos uma palavra em vez de outra, a consequência é diferente. Portanto, essa mulher revelou em seu discurso que ela ainda não se considerava como mãe de Mariana, pois ainda chamava a genitora, a que gerou, de mãe.

Quando essa mulher escutou verdadeiramente o que estava dizendo, reconheceu que ela não queria adotar uma menina, foi seu marido quem quis. Para concluir, essa mulher pôde reconhecer e fazer-se responsável pelo que tinha escolhido. Pois se o marido decidiu e ela concordou, também tinha escolhido. Chorou muito e pôde escolher, de forma consciente, ser mãe de Mariana. Como consequência Mariana pôde situar-se como sua filha e o resultado foi uma relação bem diferente da que sustentavam anteriormente.

Esse recorte, ilustra que o lugar e a função de mãe e pai, não se refere somente ao fato de alguém gerar e parir uma criança ou a um processo de reconhecimento perante a lei jurídica.

A função de mãe e pai vai além, pertence ao discurso simbólico, cabendo ao desejo e responsabilidade de cada um.

O nascimento de alguém instaura um corte entre a criança que acaba de nascer e aquela que a gerou. Esse é o primeiro de muitos outros, que se farão necessários. A partir daí, é necessário que a criança seja recebida por um Outro, um adulto responsável que, no mínimo, deseje se ocupar dela, pois diferente dos outros mamíferos, somos seres que necessitamos do Outro para nossa sobrevivência.

O filhote do animal nasce e já consegue se virar sozinho, o filho do homem é sempre prematuro, nasce e é indefeso, precisa de alguém que se ocupe dele. Que o alimente, o banhe, fale com ele, o nomeie e o ame.

Entendemos, com a psicanálise, que toda mulher para gerar um bebê, precisa desejar isso – mesmo que esse desejo não lhe seja consciente.

Isso que acabei de dizer pode provocar questionamentos para alguns de vocês, principalmente em relação aos casos de mulheres que geram filhos e depois os dão para outra, uma familiar ou uma desconhecida. Existem também àquelas que os jogam no rio, no lixo, ou os matam..

Ora, aprendemos com Freud e Jacques Lacan, dois grandes psicanalistas, que o desejo é enigmático, não sempre coincidindo com a vontade, com o que é “normal”, sadio, ou com o melhor que alguém possa escolher. Às vezes se deseja o pior. Essas mulheres que falei acima – geram bebês, mas não os assumem como seus filhos.  Isso tem relação com a sua história, que teve com seus pais, com seus irmãos. Com o lugar que ocupavam na estrutura familiar. Portanto, com sua infância e seu complexo de Édipo.

Falar da história de cada homem e mulher com sua família, remete ao fato de que, mesmo antes de nascer uma criança já tem um lugar reservado para ela no discurso familiar. Quantos de vocês já ouviram algumas meninas dizerem que “quando crescer quero ter dois filhos: Um se chamará João, e o outro Pedro ou Maria”.

Essas meninas crescem e continuam a desejar ter filhos. Outras recalcam esse desejo e não mais o reconhecem como seu.

Esses ditos nos mostram que a criança já é falada antes mesmo de nascer, portanto, o nascimento é um acontecimento que está inscrito em um discurso, inscrito na cultura, fazendo parte da estrutura da família, da cidade, do país etc.

Uma criança quando nasce ocupa um lugar de um desejo que pertence a um outro tempo. Um tempo que reside na infância de cada um.

Mas será que basta somente que alguém deseje e gere uma criança e cuide dela para que se estabeleça uma filiação? Uma relação de mãe ou pai para um filho?

Podemos responder que não. Que a intervenção necessária e fundante não é só a dos cuidados básicos para a sobrevivência, mas a de uma palavra que dê sentido ao grito que a criança emite quando cortam seu cordão umbilical e de um discurso que signifique que ela é um ser imerso nessa rede de discurso, rede de significantes. Significantes esses, que esperam o pequeno ser falante que veio ao mundo.

Cabe então a um Outro, que Lacan chamou de grande Outro (geralmente a mãe) fundar um lugar de existência para a criança. Um lugar que lhe ateste e inscreva em outro: o lugar de filho. Lugar esse, que não é transmitido pelo sangue, pelo gene ou pelo jurídico, mas pelo discurso dos pais.

O que faz uma mulher e ou um homem acolher um pequeno ser falante e o assumi-lo, adotá-lo como seu filho ou sua filha é o desejo desses pais. Desejo de se responsabilizar pela função de pai e mãe: a de cuidar, alimentar, nomear, amar e colocar limites, ensinando o que cabe a eles enquanto pais.

Quando uma mulher ou homem assumem uma “maturidade” (vida adulta) a ponto de abandonar seus pais, de abrirem mão de sua infância e deixarem de se posicionarem somente como filhos, poderão assumir a função de pai e mãe. Quando não conseguem é porque existem entraves inconscientes.

Freud disse que os pais desejam que seus filhos sejam um prolongamento deles, desejam que seus filhos sejam melhores que eles: mais saudáveis, mais bonitos, que tenham mais sucesso. Aqui podemos nos perguntar. O que acontece com esses homens e mulheres que não conseguem assumir a escolha que fizeram quando geraram uma criança?

Será que não querem transmitir um nome, um lar, uma história, uma lei? Não querem deixar de ser filhos de seu pai e sua mãe? E quando digo isso não falo somente dos pais que têm seus filhos e dão para outros exercerem a função de pais, falo também, de homens e mulheres que têm seus filhos e os tratam como coisas, como objetos, nomeando-os somente como crianças, meninas, não há lugar para nomeá-los como “meu filho”, “minha filha”. Mesmo que promovam os cuidados básicos e outros que são considerados supérfluos, não os assumem como seus filhos, não os nomeiam como tais.

Portanto, fazer de alguém filho ou filha, necessita que se faça um ato fundante: o ato de assumir, adotar no discurso e no desejo e que se responsabilize por esse ato. Quando os adultos se comprometem e se responsabilizam por esse lugar de pai ou mãe, encontraremos a criança no lugar de filho ou filha.

Andreneide Dantas
Psicanalista e Psicóloga

06 de outubro de 2006

Trabalho apresentado na Jornada “Adoções, Direitos Humanos e Psicanálise” do Instituto Tempos Modernos, no Fórum de Santo Amaro

 

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