Por que Fazer Análise?

Somos seres falantes e por esta razão contamos com o simbólico, mas também sofremos as consequências disto. A linguagem tanto pode libertar um sujeito quanto aprisioná-lo. O segundo  é o que mais testemunhamos nos dias de hoje, principalmente porque a palavra está tão vazia de sentido e valendo pouco para a grande maioria. Ouvimos as pessoas falarem e não cumprirem com o que dizem; afirmarem que falaram por falar, que se enganaram, esqueceram, ou que não tem importância o que disseram. São poucos os que contam com a linguagem para saber o que estão dizendo e em que discurso estão inscritos.

Hoje em dia procura-se a causa de muitas doenças até no fio do cabelo. Existe desde o mapeamento cerebral, medular, hormonal à investigação do DNA. Mas muitos não fazem a investigação no discurso para descobrir as causas do adoecer, e em que momento isso aconteceu, em vez de oferecer-se à ciência fazendo de seu corpo apenas um objeto de estudo e pesquisa biológica.

É incontestável a contribuição da  ciência para a humanidade, com a criação de exames para detectar doenças que antes matavam. Por outro lado, às vezes trata o corpo veterináriamente, quando deixam de se ocupar do sujeito e se ocupam somente da doença.

O que se tem feito quanto às mazelas e sintomas que cada um faz para suportar a dor de existir? Que discurso existe para as doenças da “alma” (melhor dizendo, psíquicas), essas que não saram com medicamentos?

Para estes sujeitos que não se reduzem a serem corpos biológicos nem a serem estudados e cortados, nem a se drogarem com medicamentos – que no final das contas são prescritos para muitos males – a psicanálise oferece um lugar para que descubram o que fazem e a qual discurso respondem.

A análise é árdua e faz sofrer. Mas quando se está desmoronando sob o peso das palavras recalcadas, das condutas obrigatórias, das aparências a serem salvas, quando a imagem que se tem de si mesmo torna-se insuportável, o remédio é esse. Pelo menos, eu o experimentei e guardo por Jacques Lacan uma gratidão infinita (…) Não mais sentir vergonha de si mesmo é a realização da liberdade (…). Isso é o que uma psicanálise bem conduzida ensina aos que lhe pedem socorro”. (Françoise Giroud. Le Nouvel Observateur nº 1610, Setembro de 1995.)

Esse depoimento, define bem o trabalho que uma análise possibilita. Quando o sujeito resolve descobrir o porquê do que lhe acontece, depara-se com o valor e a importância de ser falante.

No início da análise é comum que as queixas se refiram à mãe, pai, o namorado(a), chefe, ao destino etc. Esses sujeitos chegam em posição de objetos, acreditando-se vítimas, que nada tem a ver com o que lhes acontece e nada podem fazer a respeito dessa desordem na qual se encontram, porque acreditam que foram “colocados” neste lugar. (Harari)

O trabalho de análise é mostrar ao paciente sua implicação no sintoma e, também, o que ele pode fazer para sair desta confusão.

Foi Freud que descobriu que um sintoma sempre diz algo, seja ele qual for: inibição, depressão, stress, dificuldade para ganhar dinheiro, dificuldade nos relacionamentos amorosos, dependência de drogas, dificuldades escolares etc. A análise possibilita que o sujeito descubra o texto enigmático desse discurso que ele repete tantas vezes sem saber exatamente o que diz.

A felicidade ou a infelicidade não está inscrita nos genes nem nos neurônios, cada sujeito tem uma história singular, por isso cada caso é um caso particular. O trabalho analítico é escutar o discurso do sujeito que está sofrendo, para que ele descubra qual a causa, quais implicações inconscientes estão dirigindo sua vida. Esta descoberta o colocará em outra posição. Os pacientes descrevem a experiência de análise como algo que deu sentido à sua vida, aliviando suas dores e significando sua história, conseguem desfazer os nós sintomáticos que são resultados de sua história familiar.

Uma mulher, mãe de dois filhos, disse: “Agora eu sei o que significa o que digo! Deveria ter vindo antes de ter meus filhos, mas a partir de agora sei que posso transmitir algo diferente para eles”. Essa analisanda estava falando de uma outra herança: a discursiva, a de comportamento transmitido nas famílias. Nesse sentido, a herança pode ser de uma patologia, de sintomas, que podem perdurar durante várias gerações.

É durante a fala em análise, que o paciente descobre o que está recalcando e porque repete experiências em sua vida, que na maioria das vezes, lhe causam transtornos e danos, reatualizando para ele experiências vividas anteriormente.

O sujeito descobre o que causa seus sintomas e saberá que o seu destino não está escrito. Ele é o responsável e poderá escrever sua história. A psicanálise possibilita que o sujeito que “está no escuro possa acender uma luz ou abrir uma janela”, disse um outro analisando, e assim, saberá o que está fazendo e poderá se movimentar melhor no mundo.

Andreneide Dantas
Psicanalista e Psicóloga

 

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