Psicossomática

A psicanálise se ocupa do sujeito que a ciência deixa de lado, presta atenção naquilo que o médico não escuta. Não medimos taxas no sangue, radiografamos ou diagnosticamos, esse trabalho é o médico quem o faz. Escutamos o que o sujeito tem a dizer sobre esse corpo que é manipulado e se encontra “enlouquecido” por uma doença que resiste aos medicamentos. Doenças nas quais muitas vezes a medicina não encontra a causa específica.

Quando o indivíduo nasce, tem um organismo, um corpo despedaçado (conforme entendimento lacaniano), um conjunto de órgãos que só através da linguagem vai ter estatuto de unidade corporal. Este corpo a qual me refiro, é um corpo que precisa do Outro (com letra maiúscula) estruturado como um discurso, para que este corpo de carne se transforme em um corpo simbólico.

O sujeito antes de nascer, já existe na linguagem. Está na palavra mesmo antes de ter um corpo e continua a existir depois de sua morte, quando não tem mais um corpo. Isto é possível porque a duração do sujeito está sustentada pelo significante. É a linguagem que permite uma margem além da vida. Um exemplo, é que o nome dele pode continuar em uma lápide e continua a ser falado por aqueles que ficam, permanece nas lembranças.

Precisamos esquecer que temos um corpo para não enlouquecer. Não ficamos escutando as batidas de nosso coração, medindo a pressão ou sentindo a respiração – salvo os hipocondríacos.

Mas o que acontece aos pacientes que apresentam as doenças chamadas psicossomáticas? Doenças cuja etiologia não são explicadas.

Nesses casos, os transtornos orgânicos fazem os órgãos presentes, existe um retorno do autoerotismo que exclui o gozo da palavra. Sabemos que no autoerotismo – como já está dito – o sujeito prescinde do outro como semelhante, tem um autogozo, gozo no próprio corpo. Quantos de vocês já devem ter escutado de pessoas que sofrem de doenças psicossomáticas: “Essa doença me acompanha há tantos anos”; e fica como única companheira mesmo. Ou então: “Carrego comigo esta doença há dez anos”. Esta paciente precisava ficar trancada em um quarto escuro durante três dias, longe do marido e filhos.

Muitas vezes uma doença, assim como também uma droga, toma o lugar do parceiro sexual. Aprendemos isso com Freud. O sujeito não goza sexualmente com o semelhante, mas com a doença ou com a droga que ingere. Asma, úlcera, alergias, obesidade, transtornos digestivos, tumores e hemorroidas. Nesta lista incluem-se também anorexia, epilepsia, diabetes, psoríase etc.

Existe uma vasta relação de doenças que estão intimamente ligadas ao que o sujeito deixa de falar, com a renúncia de seu desejo. Aprendemos com Lacan, que “o que não é dito faz escrita no próprio corpo”, obstruindo uma veia, destruindo um órgão, abrindo feridas ou descamando a pele do corpo. Feridas que mostram que “as coisas não vão bem”, que aquele que sofre daquela forma não está bem, que algo não está sendo dito e sim escrito na carne.

A psoríase, por exemplo, (como entendemos em psicanálise) “dá a ver”, mostra, não para ler, mas para mostrar e angustiar ao outro. Aqui o gozo não fica reservado às zonas erógenas, ele se impregna no corpo, corporifica-se fazendo a lesão. Escreve no corpo algo que é da ordem do número, um grito, uma escrita que parece ilegível. E o analista com seu desejo pode escutar e possibilitar ao paciente que ele coloque em palavras o que está “escrito”  em sua “carne”.

Os pacientes com doenças psicossomáticas, geralmente têm outros casos na família, mas não significa que a transmissão tenha sido genética. Constatamos que podem ser transmitidas pelo discurso. Às vezes é uma forma, ou a única forma, de identificação.

O analista não aborda os órgãos nem o organismo ou a enfermidade, o único que trata é do discurso. Escuta, presta atenção no sujeito, ou naquilo, que do corpo o representa. Não se ocupa de fenômenos psicossomáticos, mas, de significantes. Importante um tratamento em conjunto, trata da doença com os médicos e fala de seu sofrimento na análise.

É preciso escutar o paciente e conduzir a cura até a abertura de um espaço onde o que é resposta fixa — doença psicossomática – transforme-se em uma pergunta sobre seu desejo. Só assim, o paciente pode colocar seu sofrimento no discurso, e não mais atribuir ao destino o que lhe acontece.

Podemos, com nossa escuta, oferecer um lugar e um tempo para que o sujeito faça dessa letra, desse número inscrito em sua carne, letra discursiva. Que isto possa aparecer nos sonhos, nos lapsos e esquecimentos, que possa se transformar em palavras, em um dizer ou um dito, o que está preso em um grito ou no real orgânico.

Andreneide Dantas
Psicóloga e Psicanalista

 

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