Saber médico e saber psicanalítico

Este trabalho traz uma reflexão acerca do 5º capítulo do livro de Oscar Masotta, “O Comprovante da Falta” que trata da diferença entre saber médico e saber psicanalítico – se é que podemos afirmar que há um saber psicanalítico. O objeto da medicina é o corpo anatômico, orgânico, enquanto o da psicanálise é o corpo erógeno, resultado de um aprendizado que origina-se no contato com o corpo da mãe.

Em nosso dicionário da língua portuguesa – Aurélio Buarque de Holanda – encontramos 20 diferentes acepções para o verbo saber. Destaco aqui umas poucas para podermos pensar:

Saber – ter conhecimento, ciência, informação, conhecer, estar convencido, ter certeza; ter conhecimentos técnicos especiais, perguntar, indagar, prudência, tino, sensatez.

Das significações que mais se aproximam de nossa prática, a Psicanálise, destacamos as que se encontram sublinhadas. As restantes afastam-se de nossa área, aproximando-se mais do discurso médico.

Freud sempre se preocupou com a questão do saber médico porque implica um saber prévio sobre o sujeito. Em medicina procuram-se indícios e sintomas que permitam enquadrar o paciente na nosologia estabelecida. Em psicanálise trata-se da singularidade do sujeito, sua história, seu passado.

Masotta nos mostra o quão diametralmente opostas se encontram as duas posições quando afirma que seria um mau médico aquele que viesse a ignorar a evolução e o tratamento de certos males mas seria um péssimo psicanalista aquele que pretendesse saber sobre esses objetos dos quais o paciente pretende saber enquanto estes lhe são enigmáticos.

O saber une o médico aos objetos enquanto o psicanalista deve evitar que o objeto una-se ao saber.

Na etimologia, saber é ter gosto. Para Freud, a origem do saber é o sexual. Segundo ele, a criança quer saber, é um investigador incansável, tem gosto pelas coisas sexuais. Em “Três Ensaios sobre Sexualidade”, no segundo ensaio há uma seção denominada Pulsão de Saber. Se a pulsão busca satisfação, devemos entender aqui a indicação de Freud que, um dos alvos da pulsão é o saber.

Sendo a pulsão sexual, todo saber está ligado à sexualidade. As primeiras indagações são sobre a sexualidade, interesse que posteriormente, converte-se em amor ao conhecimento.

Neste ensaio, Freud faz uma afirmação interessante: “Sua atividade ( a pesquisa sexual ) corresponde, de um lado, a uma forma sublimada de dominação e, de outro, trabalha com a energia escopofílica. Suas relações com a vida sexual, entretanto, são particularmente significativas, já que constatamos pela psicanálise que, na criança, a pulsão de saber é atraída de maneira insuspeitadamente precoce e inesperadamente intensa, pelos problemas sexuais e talvez seja até despertada por eles.”

O saber está, portanto, ligado à satisfação da pulsão, ao mesmo tempo que atende a um desejo de dominação. Desejo ao qual o analista renuncia sabendo, através de sua própria análise, que renunciar ao saber é renunciar ao encontro com o objeto.

É enquanto sujeito suposto saber que o doente visualiza o médico a quem procura. E o ato diagnóstico, à medida que nomeia a doença, possibilita ao paciente angustiar-se menos, permitindo que ele possa ser reconhecido em algum lugar. Ao dizer “você é depressivo e depressão é uma doença”, o médico pode estar impossibilitando o contato do sujeito com sua subjetividade. Tampona-se a falta de significação do paciente com o rótulo da doença.

Quando o desejo de reconhecimento é, antes, o desejo de existência, e para existir para o médico é preciso estar doente, então é para buscar esse saber absoluto, capaz de livrá-lo da angústia e apaziguar seu mal-estar, que ele, ao pedir cura, pede também que o mantenham doente, que o tratem como doente que sofre (Tourinho,1994).

Neste ponto a medicação e o rótulo da doença aparecem como uma possibilidade de identificação impedindo o paciente de construir sua própria significação.

Calando o sintoma, o médico faz calar a verdade que nele se expressa. Segundo Freud, o conhecimento sobre a doença tem tanto efeito como a distribuição de cardápios numa época de escassez de víveres, tem sobre a fome.

Em cada tratamento, analisa-se cada sujeito como um particular diferente de todos os outros, mas também, o que nele participa do sujeito como um todo e como tal, é fixado na função fálica.

O universal do sujeito é a passagem obrigatória pelo Outro como lugar significante.

Ao afirmar que a ciência não pensa, Heidegger esclarece alguns de nossos questionamentos. A ciência, enquanto ciência, não pode decidir quanto ao que é o movimento, o espaço, o tempo. É próprio de sua essência que por uma parte ela dependa do que pensa a filosofia mas, por outra parte, ela mesma olvida e descuida o que ali exige ser pensado.

Ou seja, a ciência não pensa no homem. O saber científico exclui o sujeito.

A psicanálise não é humanista mas se preocupa com o homem. O saber médico se sustenta num dizer sem sujeito, a psicanálise, no sujeito que fala. Palavra que falta para unir o saber que se articula livremente sem saber de si, e o sujeito, ávido de respostas que minimizem seu sofrimento.

A suposta certeza de uma natureza verdadeira e última não combina com a psicanálise.

Por que pensar em psicanálise? Para evitar utilizá-la como velamento teórico, ou seja, tentamos fazer uso da teoria como instrumento em referência a uma clínica, nunca como um fim em si. E há aqueles para quem ser freudiano, kleiniano, lacaniano, é um fim em si.

O saber do analista foi denominado “douta ignorância”: doutor de tanto saber a ignorância. Em psicanálise é do próprio lugar do saber do que se trata.

O discurso médico é similar ao discurso do mestre, apoiado num saber suposto. Quando Freud vence a batalha para retirar a psicanálise do poder dos médicos, emerge como conseqüência imediata, a retirada da neurose do rol das doenças. Quando falamos em neurose hoje, estamos todos incluídos.

Trouxe também como efeito, o escancaramento da dificuldade da cura. Se entendemos por cura o restabelecimento da saúde, podemos dizer que em medicina o objetivo é o retorno a um estado de equilíbrio anterior à doença, compreendendo-se esta como uma perturbação do organismo sadio.

Mas em psicanálise, lida-se com estruturas, com algo que foi paulatinamente construído, arquitetado, na história do sujeito.

Assim sendo, podemos falar em cura?

A proibição do incesto, norma constitutiva da própria condição humana, causa estruturante do corpo erógeno é a base dos conflitos, etiologia que desencadeia as neuroses. Podemos falar de cura?

Há um provérbio que diz: “Se não morrer da cura, ficará melhor”.

O objeto da psicanálise é um sujeito aprisionado em seu corpo erógeno.

Um saber que o analista detém, por exemplo é que os sintomas satisfazem, constituindo-se num sistema onde algo se arranja. Caráter paradoxal que apontou Freud em “Inibições, Sintoma e Ansiedade” (1925) onde, ao mesmo tempo que o sintoma é fonte de satisfação, também angustia. O que leva Lacan a dizer: “até certo ponto é sofrer demais que é a única justificativa de nossa intervenção”. (sem. XI p.158) Como o oleiro, o analista constrói um vaso em torno ao vazio.

Quando muito, curar-se em psicanálise é dar-se conta de uma história. História que vai mostrar o quanto o sujeito é o agente de seus próprios avatares, dores e padecimentos.

“Pescar nas águas do inconsciente é algo mais que chegar a conhecer os peixes que habitam um elemento turvo”. (Masotta)

Ao analisar “Um caso de exceção” no livro A Operação Psicanalítica, R.F.Couto diz: “a análise pode progredir perfeitamente na ignorância de qual é o objeto transferencial”. E citando Pommier prossegue: “Qualquer saber constituído, seja médico, psicológico, freudiano, lacaniano ou outro, será sempre um obstáculo para escutar um analisante em particular porque oporá seu próprio código de leitura à singularidade de uma palavra (…) A experiência do não-saber ( que nenhuma universidade sanciona) permitir-lhe-á escutar”.

Um analista não pode prometer a cura, nem a felicidade nem a harmonia uma vez que estas se situam além do princípio do prazer. Mas pode prometer aclarar o desejo do sujeito e decifrar o que insiste numa existência.

Não significa que, ao aceitarmos a particularidade de cada sujeito, estejamos desprezando as noções de estrutura generalizáveis. Podemos dizer que se não houvesse a generalização, não haveria nada sobre o que se comunicar entre analistas. As generalizações nos ajudam a compreender as particularidades.

Não estamos fazendo a apologia da preguiça. Ao contrário, estudamos, lemos e discutimos de modo permanente para compreender a singularidade de cada sujeito mas nunca para enquadrá-lo num rol.

Poderíamos apontar aqui um grande risco que corre a psicanálise: a má interpretação de seus princípios. Se – como afirmou Lacan na proposição de 9 de outubro – o psicanalista só se autoriza por si mesmo, se não há saber prévio sobre o sujeito, se o silêncio é um grande recurso do analista, parece que não haveria nada a fazer. É a inércia absoluta.

Não se trata disso. O psicanalista só se autoriza após anos de sua análise própria, a teoria psicanalítica é a base de todo nosso trabalho e o silêncio é um silêncio de saber, não sobre o objeto, mas sobre a importância da regra fundamental que permite ao sujeito associar livremente.

Esta renúncia ao saber é o que chamamos “douta ignorância”.

Fora disto, há a charlatanice.

“Ser analista é valer mais quando não se é que quando se é.

É amar na paixão da ignorância

É chegar, sem ser avisado, no lugar da surpresa ou da assombração”.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. COUTO, R. F. La Operación Psicoanalítica. Buenos Aires, Xavier Bóveda, 1994.
  2. FREUD, S. Ed. Standard Brasileira das Obras Completas de S. Freud [ESB] . R.J., Imago, 1986. Três Ensaios sobre a Sexualidade (1905), vol. VII.
  3. FREUD, S. Ed. Standard Brasileira das Obras Completas de S. Freud [ESB] . R.J., Imago, 1986. A Psicanálise Silvestre (1910) vol. XI.
  4. FREUD, S. Ed. Standard Brasileira das Obras Completas de S. Freud [ESB] . R.J., Imago, 1986. Psicanálise e Psiquiatria (1916-1917), vol. XVI.
  5. FREUD, S. Ed. Standard Brasileira das Obras Completas de S. Freud [ESB] . R.J., Imago, 1986. Sobre o ensino da Psicanálise na Universidade (1919), vol. XVII.
  6. FREUD, S. Ed. Standard Brasileira das Obras Completas de S. Freud [ESB] . R.J., Imago, 1986. A Questão da Análise Leiga (1926) , vol. XX.
  7. HEIDEGGER, M. A Ciência não pensa. Entrevista concedida à TV Alemã ZDF no 80º aniversário. Tradução da Fundação Centro Psicanalítico Argentino.
  8. LACAN, J. O Seminário. Livro 11. R.J., Jorge Zahar,1988.
  9. MASOTTA, O . O Comprovante da Falta. Campinas, Papirus, 1987. Cap. V.
  10. POMMIER, G. Lunes de Psicoanálisis en la Biblioteca Nacional. Buenos Aires, Lugar Editorial, 1996.
  11. TOURINHO, M. L. O que pode um analista no hospital. Tese de Dissertação de Mestrado na PUC de São Paulo, 1994.

Joaceri Merlin

Trabalho publicado no Boletim ITM – 1998

 

 

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