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Entrevista
- Psicanálise com crianças:
1. Quando uma criança precisa
de atendimento psicológico?
Quando tem alguma dificuldade que atrapalha seu desenvolvimento.
Dificuldade que os pais ou a escola não sabem como resolver.
2. A partir de que idade é possível?
Atendo pacientes desde a idade de 3 anos, mas existem trabalhos feitos
desde o berçário com crianças que são consideradas “diferentes”
das outras, que mesmo com todo o aparato médico não respondem
ao tratamento.
3. Em que se baseia o tratamento?
Em ouvir o paciente, escutar o seu discurso. Por estarmos
na linguagem , podemos ser aprisionados pela palavra
mas também podemos nos curar. A psicanálise escuta o
que os outros discursos deixam de fora. Trabalhamos com
os sonhos, atos falhos, esquecimentos.
4. Qual é a diferença entre a ludoterapia e a psicanálise
com crianças?
Ludoterapia é uma especialidade da psicologia que trabalha
com jogos e brinquedos, utilizando-os como uma forma
de “fala” da criança. A psicanálise com crianças não
é uma especialidade da psicanálise. Nós tratamos o sujeito,
independente de sua idade. Utilizamos também jogos, desenhos,
mas tendo claro que uma criança fala e é neste ponto
que trabalhamos, escutando o que nos dizem os pacientes.
5. Que tipos de sintomas são mais comuns?
As queixas mais comuns são as dificuldades escolares, que
vão desde troca de letras, repetência, hiperatividade,
etc. Mas essas queixas encobrem outras que aos poucos
vão sendo faladas. À medida que o trabalho vai se realizando,
vemos qual a posição da criança na família, como está
o casal parental, o que esperam deste filho e como ele
responde a isso.
6. Quando os pais ou professores precisam procurar atendimento psicanalítico
para o filho ou aluno?
Toda vez que observarem que algo não anda bem: estão muito agressivas,
não conseguem aprender, vivem constantemente doentes, não
falam ou demoram para falar. Enfim, quando percebem que algo
ali não está certo.
7. Porque muitas crianças agressivas ou hiperativas tomam medicamentos?
Porque os pais muitas vezes não têm tempo para descobrir o
que acontece com seus filhos, os professores não escutam
seus alunos, os psiquiatras receitam remédios para que
a criança comporte-se "bem", acreditando que é mais fácil
dar medicação do que dedicar alguns minutos de seu trabalho
para descobrir o que está acontecendo com o filho, aluno
ou paciente. E tem toda a oferta no mercado de remédios e
vitaminas para toda espécie de mal.
8. Se uma criança com algumas destas dificuldades não for atendida
adequadamente, quais as consequências futuras?
Muitos adultos com problemas, apresentaram alguns sintomas
na infância e não foram escutados, não deram importância
ou acreditaram que com o passar do tempo ficariam curados.
Provavelmente, se tivessem feito tratamento para descobrir
o que lhes acontecia, teriam chance de crescer saudáveis
e felizes.
9. É possível que quem necessite de tratamento psicológico
sejam os pais e não o filho?
Sim. Muitos casais trazem seus filho ao consultório e descobrem
que são eles os que necessitam de tratamento. Por isto
quando atendemos crianças precisamos escutar de quem
é demanda.
10. Hoje em dia vemos crianças mais agressivas e inclusive
crianças pequenas matando, o que acontece?
As crianças que matam ou agridem colegas muitas vezes são
estimuladas a isso. Não que os pais peçam para que matem ou agridam
os outros, mas incitam de outra forma , agem com seus filhos
com agressividade ou permitem que eles acreditem que podem tudo,
não dão limites a seus filhos.
11. Porque uma criança ou adolescente rouba ou se droga?
Qualquer um destes atos nos mostra que, com aquele sujeito,
algo não anda bem. Precisamos escutar e descobrir o que
eles estão dizendo com isto que estão fazendo. Algumas
pessoas acreditam que a delinquência ou a dependência
de drogas passa pelo hereditário , mas não é assim. O
que acontece com cada um tem a ver com a posição que
o sujeito ocupa no discurso familiar.
12. Crianças cujo
pais se drogam serão futuros drogados?
Não. Acreditar nisso é o mesmo que acreditar que o sujeito
não é responsável pelos seus atos, ou que o que lhes
acontece tem a ver com o “destino”. E vemos que, quando
o paciente que apresente qual seja o sintoma, muda o
seu discurso, também muda a sua vida. Quando organiza
o seu discurso, se apresenta na vida de outra forma diante
do mundo.
13. Porque
gasta-se milhões com campanhas anti-drogas e são poucos os
resultados?
Porque esse trabalho é feito pela via da proibição. Apresentam
todos os males que as drogas trazem, quando, no começo,
os usuários dizem obter resultados, momentos felizes
“êxtase”, etc. E só depois sofrem as consequências da
dependência química. E não é verdade que todos que usem
drogas sejam dependentes. Então o que fazemos é escutar o
que cada um tem a dizer sobre isto e aí sim o trabalho tem
eficácia, porque o paciente descobre porque precisou
ser dependente de determinada droga e então pode se libertar
desta escravidão.
14. Existem algumas doenças ( bronquite, alergias, doenças
de pele, diabetes, asma, etc.) que fazem com que a criança,
mesmo sendo atendida por médicos não trazem resultados
satisfatórios. Essas crianças se beneficiariam do tratamento
psicanalítico?
Sim. Tenho a experiência de ter atendido pacientes com crises
de bronquites, alergias e asma que frequentemente eram
internados e que depois com o tratamento psicanalítico,
foram falando de suas relações familiares e descobriram
o que era difícil de respirar em suas vidas.
15. É certo uma criança, mesmo recém nascida, dormir no quarto
dos pais?
É importante que cada sujeito, independente da idade, tenha
seu lugar, sua cama. Muitas mães acreditam que seus filhos
não conseguiriam ficar sozinhos em um quarto longe delas.
Mas vemos que são elas as que não conseguem ficar longe
do filho. As crianças que atendemos e dormem na cama
ou quarto dos pais apresentam imaturidade, insegurança,
medos, etc.
16. Na educação existem classes especiais para crianças chamadas “especiais”,
esta é a melhor forma de educá-los?
Não. Experiências já demonstraram que as crianças que são diagnosticadas
como “especiais”, quando integradas no ensino regular aprendem
melhor e mais rápido e as outras crianças que não são ditas ‘especiais’
também têm um melhor aproveitamento. Não se trata de fazer
guetos acreditando que existem as crianças ‘iguais’ e as
‘diferentes’ e sim trabalhar as diferenças de cada um.
17. Crianças com síndrome de Dowm ou deficiência mental podem
fazer análise?
Sim. Tenho esta experiência de crianças que chegaram ao consultório com
rótulo de ‘deficiente mental’ e que com o tratamento analítico demonstraram
que não eram deficientes e sim tinham um comprometimento em
relação ao seu lugar junto a sua mãe e que, quando trabalhado, possibilitou
para essas crianças serem crianças como as outras. Podendo
falar e ser escutadas.
Entrevista
concedida pela psicanalista Andreneide Dantas ao programa
Lapidação do Ser na Rádio Mundial em jan/99
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