bar.gif (331 bytes)

A RESISTÊNCIA DO TRATAMENTO PSICANALÍTICO

Freud aborda de diferentes maneiras em sua obra a questão da resistência ao trabalho do analista, ao restabelecimento do sujeito e ao tratamento em si. Nesse trabalho pretendo transmitir o que Freud escreveu a respeito da relação da resistência com a transferência e com a compulsão à repetição e quais recursos do aparelho psíquico são utilizados na transferência.

Em A Dinâmica da Transferência, Freud aponta dois pontos de interesse específico para os psicanalistas em relação ao comportamento da transferência. O primeiro é a respeito da intensidade da transferência nos indivíduos neuróticos em análise. O segundo ele considera um enigma: “a razão por que, na análise, a transferência surge como a resistência mais poderosa ao tratamento”.

Ele nos dá o seguinte exemplo: “se as associações de um paciente faltam, a interrupção pode invariavelmente ser removida pela garantia de que ele está sendo dominado, momentaneamente, por uma associação relacionada com o próprio médico ou com algo a este vinculado. Assim que esta explicação é fornecida, a interrupção é removida ou a situação se altera, de uma em que as associações faltam para outra em que elas estão sendo retidas”.

A resistência pode ocorrer quando o tratamento visa promover que o sujeito desloque partes da libido que estão inconscientes, e longe da realidade, para a consciência, tornando-as úteis para a realidade. “No ponto em que as investigações da análise deparam com a libido retirada em seu esconderijo, está fadado a irromper um combate; todas as forças que fizeram a libido regredir erguer-se-ão como resistências ao trabalho da análise, a fim de conservar o novo estado das coisas”.

As resistências oriundas desta fonte não são as mais poderosas. “A libido à disposição da personalidade do indivíduo esteve sempre sob a influência da atração de seus complexos inconscientes, e entrou em curso regressivo devido ao fato de a atração da realidade haver diminuído. A fim de liberá-la, esta atração do inconsciente tem de ser superada, isto é, a repressão dos instintos inconscientes e de suas produções, que entrementes estabeleceu no indivíduo, deve ser removida. Isto é responsável, de longe, pela maior parte da resistência, que tão amiúde faz a doença persistir mesmo após o afastamento da realidade haver perdido sua justificação temporária”.

Freud afirma que o analista deve lidar com as resistências oriundas de ambas as fontes e que a resistência acompanha todo o tratamento. “Cada associação isolada, cada ato da pessoa em tratamento tem de levar em conta a resistência e representa uma conciliação entre as forças que estão lutando no sentido do restabelecimento e as que se lhe opõem”.

Ele afirma que a transferência entra em cena, quando algo do material do complexo patogênico representado na consciência, por exemplo, sob a forma de um sintoma, serve para ser transferido para a figura do médico. As resistências são anunciadas na associação seguinte. “Inferimos desta experiência que a idéia transferencial penetrou na consciência à frente de quaisquer outras associações possíveis, por que ela satisfaz a resistência. Um recurso deste tipo se repete inúmeras vezes no decurso de uma análise. Reiteradamente, quando nos aproximamos de um complexo patogênico, a parte desse complexo capaz de transferência é empurrada em primeiro lugar para a consciência e defendida com a maior obstinação”. Assim que as resistências são vencidas, a superação de outras partes do complexo quase não apresenta novas dificuldades.

Freud questiona o motivo pelo qual a transferência serve de meio de resistência. Ele considera a dificuldade em “admitir qualquer impulso proscrito de desejo, se ele tem de ser revelado diante da própria pessoa com quem se relaciona”. Fora do consultório isso é praticamente impossível e é “a isso que o paciente visa, quando faz o objeto de seus impulsos emocionais coincidir com o médico”.

No entanto, em transferência o sujeito pode confiar ao analista seu segredos, facilitando o trabalho analítico. Portanto, Freud recomenda que o analista deve distinguir a transferência positiva da negativa e tratá-las separadamente. “A transferência positiva é ainda divisível em transferência de sentimentos amistosos ou afetuosos que são admissíveis à consciência, e transferência de prolongamentos desses sentimentos no inconsciente. Com referência aos últimos, a análise demonstra que invariavelmente remontam a fontes erótica”.

Freud aponta a solução do enigma citado inicialmente: “a transferência para o médico é apropriada para a resistência ao tratamento apenas na medida em que se tratar de transferência negativa ou de transferência positiva de impulsos eróticos reprimidos. Se ‘removermos’ a transferência para torná-la consciente, estamos desligando apenas, da pessoa do médico, aqueles dois componentes do ato emocional; o outro componente, (o da transferência positiva) admissível à consciência e irrepreensível, persiste, constituindo o veículo de sucesso na psicanálise, exatamente como o é em outros métodos de tratamento”.

Em Recordar, Repetir e Elaborar, Freud afirma que o emprego da arte de interpretação é dirigido para identificar as resistências e torná-las conscientes ao paciente. Espera-se com esse artifício que o reprimido retorne.

Contudo, existem casos em que “o paciente não recorda coisa alguma do que esqueceu e reprimiu, mas expressa-o pela atuação ou atua-o (acts it out). Ele o reproduz não como lembrança, mas como ação; repete-o, sem, naturalmente, saber o que está repetindo”. Freud dá o seguinte exemplo: “o paciente não diz que recorda que costumava ser desafiador e crítico em relação à autoridade dos pais; em vez disso, comporta-se dessa maneira com o médico”.

Freud afirma que geralmente o paciente inicia seu tratamento com uma repetição desse tipo. Frente ao anúncio da regra fundamental para que associe livremente, o paciente se cala ao invés de despejar um “dilúvio de informações”. Para Freud, isso “é simplesmente uma repetição de uma atitude homossexual que se evidencia como uma resistência contra recordar alguma coisa. Enquanto o paciente se acha em tratamento, não pode fugir a esta compulsão à repetição; e, no final, compreendemos que esta é a sua maneira de recordar”.

Da relação desta compulsão à repetição com a transferência e a resistência, Freud aponta que a transferência é “um fragmento da repetição e que a repetição é uma transferência do passado esquecido, não apenas para o médico, mas também para todos os outros aspectos da situação atual”. Quanto à resistência, afirma que sua intensidade é extensiva à substituição do recordar pela atuação ou repetição.

O caminho para a atuação está aberto caso, no decorrer do tratamento, a transferência se torne hostil ou excessivamente intensa e precise de repressão. “Daí por diante, as resistências determinam a seqüência do material que deve ser repetido. O paciente retira do arsenal do passado as armas com que se defende contra o progresso do tratamento – armas que lhe temos que arrancar, uma por uma”.

“Aprendemos que o paciente repete ao invés de recordar e repete sob as condições da resistência. Podemos agora perguntar o que é que ele de fato repete ou atua (acts out). A resposta é que repete tudo o que já avançou a partir das fontes do reprimido para a sua personalidade manifesta – suas inibições, suas atitudes inúteis e seus traços patológicos de caráter. Repete também todos os seus sintomas, no decurso do tratamento”.

Freud afirma que o paciente pouco sabe e subestima a importância do seu adoecimento quando inicia o tratamento. “Assim, pode acontecer que não saiba corretamente em que condições sua fobia se manifesta, não escute o fraseado preciso de suas idéias obsessivas ou não apreenda o intuito real de seu impulso obsessivo”.

Essa atitude não auxilia o tratamento. “O paciente tem de criar coragem para dirigir a atenção para os fenômenos de sua moléstia. Sua enfermidade em si não deve mais parecer-lhe desprezível, mas sim tornar-se um inimigo digno de sua têmpera, um fragmento de sua personalidade, que possui sólido fundamento para existir e da qual coisas de valor para a sua vida futura têm de ser inferidas. Acha-se assim preparado o caminho, desde o início, para uma reconciliação com o material reprimido que se está expressando em seus sintomas, enquanto, ao mesmo tempo, acha-se lugar para uma certa tolerância quanto ao estado de sua enfermidade. Se esta nova atitude em relação à doença intensifica os conflitos e põe em evidência sintomas que até então haviam permanecido vagos, podemos facilmente consolar o paciente mostrando-lhe que se trata apenas de agravamentos necessários e temporários e que não se pode vencer o inimigo ausente ou fora de alcance. A resistência, contudo, pode explorar a situação para seus próprios fins e abusar da licença de estar doente. Ela parece dizer: ‘Veja o que acontece se eu realmente transijo com tais coisas. Não tinha razão em confiá-las à repressão?’ Pessoas jovens e pueris, em particular, inclinam-se a transformar a necessidade, imposta pelo tratamento de prestar atenção à sua doença, numa desculpa bem-vinda para regalar-se em seus sintomas”.

“As táticas a serem adotadas pelo médico, nesta situação, são facilmente justificadas.(...) Ele está preparado para uma luta perpétua com o paciente, para manter na esfera psíquica todos os impulsos que este último gostaria de dirigir para a esfera motora; e comemora como um triunfo para o tratamento o fato de poder ocasionar que algo que o paciente deseja descarregar em ação seja utilizado através do trabalho de recordar”.

Freud afirma que o instrumento principal para lidar com a resistência e a compulsão para a repetição é o manejo da transferência.

Ele relata casos em que o médico apontou a resistência ao paciente, sem efetuar nenhuma mudança, intensificando-a e obscurecendo a situação analítica. Ele adverte que apontar a resistência não provocará sua cessação imediata e que o analista deve dar tempo ao paciente para se familiarizar, elaborar e superar a resistência que lhe foi apresentada. “Só quando a resistência está em seu auge é que pode o analista, trabalhando em comum com o paciente, descobrir os impulsos instintuais reprimidos que estão alimentando a resistência; e é este tipo de experiência que convence o paciente da existência e do poder de tais impulsos. O médico nada mais tem a fazer senão esperar e deixar as coisas seguirem seu curso, que não pode ser evitado nem continuamente apressado”.

Freud afirma que a elaboração das resistências é um trabalho árduo para o paciente e demanda paciência do analista e que este trabalho é o que gera as maiores mudanças no paciente e distingue o tratamento psicanalítico de outros.

Em Análise Terminável e Interminável, Freud explora os tipos de resistência no aparelho psíquico: os mecanismos de defesa do ego; um tipo que não pode ser localizado e que parece depender de condições fundamentais do aparelho mental; as resistências oriundas do id; e devido as ações concorrentes ou mutuamente opostas dos dois instintos primevos – Eros e o instinto de morte.

Quanto aos mecanismos de defesa do ego, ele explica que eles têm como propósito afastar o sujeito dos perigos. Inicialmente, o ego surge para proteger o id dos perigos do mundo externo. Durante esse processo o ego pode adotar uma atitude defensiva em relação ao id e compreender que a satisfação instintual pode levá-lo a um perigo externo. Posteriormente, pode dominar o perigo interno antes que ele se torne externo por meio de mecanismos de defesa que visam evitar o perigo, a ansiedade e o desprazer. Cada pessoa utiliza uma seleção desses mecanismos, que se fixam no ego, tornando-se reações de caráter que são repetidas sempre que ocorre uma situação parecida com a que os originou. “Durante o tratamento, nosso trabalho terapêutico está constantemente oscilando para trás e para frente, como um pêndulo, entre um fragmento de análise do id e um fragmento de análise do ego. Num dos casos, desejamos tornar consciente algo do id; no outro; queremos corrigir algo no ego. A dificuldade da questão é que os mecanismos defensivos dirigidos contra um perigo anterior reaparecem no tratamento como resistências contra o restabelecimento. Disso decorre que o ego trata o próprio restabelecimento como um novo perigo”.

Freud afirma que esses mecanismos são inconscientes e estão isolados dentro do ego. Contudo, são mais facilmente identificáveis que os conteúdos ocultos do id. No trabalho com as resistências, o ego se retrai e deixa de apoiar os esforços para revelar o id. Esse trabalho desencadeia a sensação de desprazer e conseqüentemente as transferências negativas se intensificam, revelando uma resistência contra a revelação das resistências e à análise como um todo.

Nas resistências que não podem ser localizadas, Freud usa o exemplo de pessoas com uma especial “adesividade de libido”. O tratamento dessas pessoas movimenta-se lentamente e “elas não podem decidir-se a desligar catexias libidinais de um determinado objeto para outro, embora não possamos descobrir nenhuma razão especial para essa lealdade catexial”. Ele fala sobre o tipo oposto de pessoa, “em quem a libido parece particularmente móvel”. Essas pessoas aceitam as novas catexias propostas pela análise e logo as abandonam de novo.

Nas resistências oriundas do id, Freud usa como exemplo o comportamento dos idosos ao qual atribui uma “certa quantidade de inércia psíquica” ou “entropia psíquica”. Segundo ele, nesse tipo de paciente “todos os processos mentais, relacionamentos e distribuição de forças são imutáveis, fixos e rígidos” e eles hesitam acentuadamente frente à sugestão feita pelo tratamento de novos caminhos para um impulso instintual.

Um outro tipo de obstáculo ao êxito do tratamento pode originar-se de raízes diferentes e mais profundas. Localiza-se além das instâncias do aparelho psíquico – id, ego e superego. Para Freud, uma parte da força das resistências contra o restabelecimento do sujeito é identificada como sentimentos de culpa e necessidade de punição, conseqüência da relação entre o ego e o superego. A outra parte remete ao instinto de agressividade ou de destruição, “o instinto de morte original da matéria viva”.   

Lucio Artioli dos Santos
lucio.artioli@terra.com.br
Trabalho de Conclusão de Curso -Instituto Tempos Modernos– Dezembro/2005