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Os Sonhos e o Inconsciente

O conceito de que o sonho tem uma explicação científica começou a ser desenvolvido ainda na Grécia antiga. Para Homero, eles ainda eram mensageiros dos deuses, e para Hesíodo eram crianças da noite que habitavam
um mundo paralelo. Idéias similares são encontradas em Sófocles, Ésquilo e Eurípedes. Apesar desta aparente coerência entre os pensadores da época, sacerdotes já aliavam as supostas mensagens dos deuses a interpretações racionais de sonhos no diagnóstico e na cura de doentes. Para Aristóteles, um dos grandes pilares do pensamente ocidental, os pesadelos eram causados pela ingestão de alimentos difíceis de digerir. Mesmo assim, o filósofo não descartava que os sonhos poderiam ter uma origem mais profunda.

Alguns pesquisadores europeus estudaram o mecanismo dos sonhos antes que Freud lançasse o seu "A Interpretação dos Sonhos", considerado uma dos livros mais importantes do século 20. A maioria dos estudos é citada na obra de Freud, muitas vezes para serem refutados a partir das teorias e da prática do pai da psicanálise. Segundo Freud, o trabalho dos sonhos ocorre com condensação ou deslocamento.

Condensação
1 - Um certo número de temas, imagens, figuras e idéias são combinados em uma só. Um exemplo é o sonho de Freud com seu tio, quando ele condensou a imagem do tio Joseph com a do amigo R., indicando que ele considerava o amigo um simplório como seu tio.
2 - Pegar um tema ou um objeto que identifique um grupo. Se num sonho a mãe, o pai, e o namorado têm cabelos loiros, pode significar a condensação destas figuras num único sentimento.
3 - A condensação opera na linguagem. Podemos alterar uma palavra para dizer algo que realmente sentimos, criando um neologismo.

Deslocamento
Freud percebeu que fatos importantes dos pensamentos oníricos latentes comumente são expressados no sonho de forma deslocada. Como se, ao ter um problema no trabalho, a pessoa chegasse em casa e chutasse o cachorro. Como este tipo de deslocamento ocorre o tempo inteiro, Freud diz que só usando as associações de quem sonhou se pode chegar ao mapa emocional do sonho. Um exemplo é o do sonho da Bela Açougueira, em que o sonho com o salmão e o caviar indicam a rivalidade da mulher rivalidade com outra em relação ao
marido. Outro tipo de processo que pode ocorrer no sonho, similar ao deslocamento, indica as emoções contidas no sonho. A emoção pode ser eliminada, diminuída ou simplesmente se transformar em seu contrário. Neste caso, o sujeito que chega irritado do trabalho, em vez de chutar o cachorro, mimaria o bichinho.

Outra observação importante de Freud sobre os sonhos é de que, para produzi-los, o sujeito precisa transformar pensamentos abstratos em imagens, ou seja, numa linguagem concreta. Um exemplo é o do pai, que vê seu filho, já morto, ser queimado. Assim, seu desejo de que o filho continuasse vivo é expresso nesta imagem, do filho vivo sendo queimado. Para Freud, sonhar é um pouco como escrever um poema. As pessoas tentam colocar seus pensamentos do modo mais sucinto possível, então os traduzem numa linguagem concreta e permeada por imagens. Neste caso, a condensação e o deslocamento atuam de forma conjunta.
Outras vezes, diz Freud, um sonho é como um hieróglifo ou um rébus (ideograma que deixa de representar o objeto e passa a representar seu fonograma).. A idéia de deslocamento está presente em toda a teoria de
sonhos de Freud.

Interferências da atividade de vigília
Além dos processos ocorridos durante o trabalho do sonho, seu conteúdo tb sofre alterações quando o pensamento consciente é aplicado sobre o material sonhado. O sujeito preenche os buracos da narrativa e transforma o sonho numa história coerente, com começo, meio e fim. Assim como os poemas, que
podem surgir de emoções ou idéias disparatados e, depois, ser reconstruídos num primeiro rascunho. Depois, olhamos o trabalho de outra forma e começamos a modificá-lo de acordo com a razão e critérios mais formais.

Essas três funções -- condensação, deslocamento e revisão -- constituem-se no mecanismo central de construção de um sonho. Estes mesmos mecanismos operam na arte, música, literatura, jogos e na formação de sintomas neuróticos. Sua grande possibilidade de aplicação pode ter levado Freud a considerar os sonhos como algo tão importante como o único meio de atingir o inconsciente.

A teoria de Freud sobre os sonhos se baseia em quatro assertivas:

1 - Os sonhos realizam desejos
2 - Sonhos são a realização disfarçada dos desejos
3 - Sonhos realizam, disfarçadamente, um desejo reprimido
4 - Sonhos realizam disfarçadamente um desejo reprimido e infantil

OS SONHOS REALIZAM DESEJOS
Primeiro, vamos revisar o processo da formação do desejo. Um desejo só existe a partir de uma negativa. Por exemplo: a criança quer um sorvete, a mãe nega. Aí ela passa a dizer que 'gostaria de tomar um sorvete". Aí surge o desejo, sempre a partir de um querer e de uma proibição. O desejo é o resultado disso. Aí entra o conceito de castração: quando a criança começa a ter suas vontades negadas pela mãe, começa a desejar. Depois vem outro conceito, o de gozo, que, se entendi bem, seria um prazer ligado à mãe (como
figura, claro), o gozo do Grande Outro, para Lacan.
Quando crescemos, a proibição se torna internalizada e os desejos proibidos ficam inconscientes. Para Freud, o sonho é o guardião do sono, ele próprio realiza o desejo do sujeito de dormir. Freud diz:
"Sonhos anulam os estímulos físicos que atrapalham o sono pelo método da satisfação alucinatória. Esse estímulo físico tanto pode ser a fome e a vontade de fazer xixi quanto um fato que, durante o dia, despertou um desejo que se manteve insatisfeito."

SONHOS SÃO A REALIZAÇÃO DISFARÇADA DE UM DESEJO
O desejo reprimido pode aparecer de forma disfarçada num sonho: conteúdo manifesto e conteúdo latente. Este conceito de Freud é homólogo à teoria de Noam Chomsky sobre a gramática, que tem duas estruturas: a profunda e a superficial. Só que, à epoca de Freud, a linguística era inexistente, portanto ele estruturou os níveis ou o processo de sonho de outra forma.
Segundo ele, o trabalho do sonho seria o de combinar resquícios da vida de vigília, ou seja, fatos que ocorreram durante o dia, com os pensamentos oníricos. Os pensamentos oníricos emergem com a associação do que foi vivido durante o dia, o gancho.

SONHOS SÃO A REALIZAÇÃO DE UM DESEJO REPRIMIDO
Qual é a motivação de um sonho? Freud considerou tanto o motivo que o ocasionou quanto o que provocou distorções nele, ou seja, a censura. Como os sonhos disfarçam o desejo, eles não o deixam aparente ou manifesto. O que não aparece foi interditado pela parte consciente da mente. Freud detecta duas forças na criação do sonho: o desejo e a força repressora da consciência. Esse processo equivale ao de um censor, que veta partes de um artigo político ou de uma obra de arte. Para Freud, o motivo do sonho é um desejo reprimido ou, no mínimo, proibido. Os sonhos são, assim, uma estrutura de compromisso criada a partir de um conflito psicológico. Para que o sujeito continue dormindo tranqüilamente, a censura opera e disfarça o
desejo que foi reprimido. Os sonhos de angústia seriam decorrentes de uma falha neste processo, pois fazem com que o sujeito acorde porque ele não suporta se dar conta de seu desejo reprimido.

SONHOS SÃO A REALIZAÇÃO DISFARÇADA DE UM DESEJO REPRIMIDO E INFANTIL
Para Freud, o que é reprimido ou proibido são os desejos da infância: a sensação de onipotência (eu sou o melhor, posso satisfazer minha mãe, ou o Grande Outro), inaceitável no convívio social, e fantasias sexuais
proibidas. Esse sentimento egoísta de poder, de ser o melhor, e os de ser agressivo e destruir outras pessoas aparecem em muitos dos sonhos analisados por Freud. Como a formação dos desejos inconscientes sempre se dá na infância, então os sonhos usam um evento diurno para manifestar um desejo reprimido da infância.

Rosane Maria Aubin
Pedagoga
Telefone: 9638-6071
Trabalho de Conclusão de Curso – TCC de Introdução à Psicanálise - Dezembro de 2002